Lá no Chile havia uma
espécie de prova para as crianças entrarem no colégio. Eu não entendo bem
porque, mas existia isso no Saint George´s College e não sei se havia em outros
colégios. Eu não costumo me pré-ocupar, então estava de boa, mas haviam pais que
ficavam muito nervosos com receio do filho não ser aceito, principalmente os
que já tinham um filho estudando lá. E eis que Henrique naquela primeira prova
de sua vida, com quase 4 anos de idade rapidamente se deu conta que a fita
dourada colocada na sua roupa tinha uma conexão com a bola dourada no avental
de uma das professoras.
As crianças eram retiradas do pátio em que brincavam em
grupos de cinco e ele numa destas se grudou na mão da professora de cor dourada
e acabou ele mesmo escolhendo o momento de ser avaliado... "Por fin me
toca", me dizia num espanhol carregado dum sentimento de finalmente (ele
queria muito seguir os passos da mana).
Lembro
das professoras falando que ele era muito atento. Na certa liberdade das aulas
do pré-kinder e Kinder ele poderia estar embaixo da mesa brincando
aparentemente absorto ao que acontecia na sala, mas quando a professora
perguntava algo pra turma era dos poucos que respondia, muitas vezes o único...
Quando viemos para o Brasil, estranhamos muito o colégio, as metodologias e a
rotina. Ele e Lígia falavam português com um acento do espanhol, mas ambos
foram aprendendo as gírias, fazendo amigos e superaram.
Divertido
Na vida acadêmica de
Henrique raras vezes fui chamada ao colégio e normalmente para que puxasse as
orelhas, porque ele tinha muita capacidade mas alguma preguiça... Muito cedo
fui categoricamente liberada e convidada a não auxiliar nos temas ("mami,
não precisa, sai, deixa que eu faço sozinho"), ele só me avisava quando
precisava uma cartolina, um material diferente, um avental, uma tinta ou outra
coisa. Vibrava com os conhecimentos, com uma sede de saber e aí vinham as
piadinhas.... - Mãe, vem aqui, preciso de ti como minha advogada (brigando com
a Lígia, agosto 2010) - Anita, sabia que a maçã não é um fruto? É um pseudo-fruto...
(ela comia uma maçã, 2013)...
Inteligente
Com
capacidade para ser brilhante, no colégio foi se destacando, convidado a
participar do GEA (grupo de estudos avançados), ganhou destaque em alguns
simulados, terceiro lugar ali, primeiro lugar em outros, sempre nos enchendo de
orgulho. Eu raramente descobria por ele, as vezes na página do colégio o via
numa foto do lado da diretora e eu só perguntava: Henrique, tu não tem nada
para me contar? Ele dava uma risadinha de lado e aí contava. Eu sabia que havia
uma satisfação naquele olhar, mas era assim, sem alarde, muito Henrique. Outras
vezes descobria pela Julia S., que comentava como eu soubesse que Henrique
estava assim ou assado na hora da premiação (que premiação??!) Um guri simples,
discreto, envergonhado, dono de um humor peculiar e delicioso, de
"time" perfeito, mas que também pode ser bem explosivo, sobretudo em
suas frustrações, e assim da água pro vinho em outro momento se mostra super
amoroso e com uma paciência infinita... muito Henrique.
Companheiro, amigo e introspectivo
Com a
Lígia tem uma conexão especial, de irmão, de cumplicidade e segredos que me
traz muita satisfação. Este ano me surpreendeu e comoveu numa situação com o
Enem. A Lígia voltou do primeiro dia de provas nervosa e angustiada, não gostou
do tema da redação e sensível como é estava bastante abalada. A noite ela já
havia corrigido sua prova com o gabarito extra-oficial e ficou perguntando para
Henrique como ele havia ido. Ele desconversou de várias maneiras, e até eu
fiquei me perguntando se ele havia ido muito mal e estava escondendo ou se não
tinha nenhuma curiosidade de saber a nota, mas depois descobrimos que ele
estava na verdade poupando a irmã, havia ido muito bem e melhor que ela e não
queria que ela ficasse mais triste, só contou no outro dia, depois de muita insistência
dela... Este gesto de acolhimento e de empatia me faz vibrar e me transborda,
quase mais que qualquer nota.
De todas
as despedidas que os filhos vão nos dando na vida; da mamadeira, do cadeirão,
de precisar de aconchego e colo, de auxílio no banho, da necessidade física e
emocional da gente do lado nos conflitos na infância, Henrique hoje me
apresenta mais uma: terminou o colégio. Durante toda essa semana estive
nostálgica relembrando situações desse meu guri.
Filho, te desejo muitas conquistas e realizações, seja feliz.
Coloca empenho e valoriza as oportunidades que a vida te oferece. Te amo
infinito. Sempre que precisar, estaremos por perto.
Nenhum comentário:
Postar um comentário