sexta-feira, 10 de abril de 2020

E ele conclui o ensino médio


Lá no Chile havia uma espécie de prova para as crianças entrarem no colégio. Eu não entendo bem porque, mas existia isso no Saint George´s College e não sei se havia em outros colégios. Eu não costumo me pré-ocupar, então estava de boa, mas haviam pais que ficavam muito nervosos com receio do filho não ser aceito, principalmente os que já tinham um filho estudando lá. E eis que Henrique naquela primeira prova de sua vida, com quase 4 anos de idade rapidamente se deu conta que a fita dourada colocada na sua roupa tinha uma conexão com a bola dourada no avental de uma das professoras. 
As crianças eram retiradas do pátio em que brincavam em grupos de cinco e ele numa destas se grudou na mão da professora de cor dourada e acabou ele mesmo escolhendo o momento de ser avaliado... "Por fin me toca", me dizia num espanhol carregado dum sentimento de finalmente (ele queria muito seguir os passos da mana).
Lembro das professoras falando que ele era muito atento. Na certa liberdade das aulas do pré-kinder e Kinder ele poderia estar embaixo da mesa brincando aparentemente absorto ao que acontecia na sala, mas quando a professora perguntava algo pra turma era dos poucos que respondia, muitas vezes o único... Quando viemos para o Brasil, estranhamos muito o colégio, as metodologias e a rotina. Ele e Lígia falavam português com um acento do espanhol, mas ambos foram aprendendo as gírias, fazendo amigos e superaram. 

Divertido

Na vida acadêmica de Henrique raras vezes fui chamada ao colégio e normalmente para que puxasse as orelhas, porque ele tinha muita capacidade mas alguma preguiça... Muito cedo fui categoricamente liberada e convidada a não auxiliar nos temas ("mami, não precisa, sai, deixa que eu faço sozinho"), ele só me avisava quando precisava uma cartolina, um material diferente, um avental, uma tinta ou outra coisa. Vibrava com os conhecimentos, com uma sede de saber e aí vinham as piadinhas.... - Mãe, vem aqui, preciso de ti como minha advogada (brigando com a Lígia, agosto 2010) - Anita, sabia que a maçã não é um fruto? É um pseudo-fruto... (ela comia uma maçã, 2013)...

Inteligente

Com capacidade para ser brilhante, no colégio foi se destacando, convidado a participar do GEA (grupo de estudos avançados), ganhou destaque em alguns simulados, terceiro lugar ali, primeiro lugar em outros, sempre nos enchendo de orgulho. Eu raramente descobria por ele, as vezes na página do colégio o via numa foto do lado da diretora e eu só perguntava: Henrique, tu não tem nada para me contar? Ele dava uma risadinha de lado e aí contava. Eu sabia que havia uma satisfação naquele olhar, mas era assim, sem alarde, muito Henrique. Outras vezes descobria pela Julia S., que comentava como eu soubesse que Henrique estava assim ou assado na hora da premiação (que premiação??!) Um guri simples, discreto, envergonhado, dono de um humor peculiar e delicioso, de "time" perfeito, mas que também pode ser bem explosivo, sobretudo em suas frustrações, e assim da água pro vinho em outro momento se mostra super amoroso e com uma paciência infinita... muito Henrique.

Companheiro, amigo e introspectivo

Com a Lígia tem uma conexão especial, de irmão, de cumplicidade e segredos que me traz muita satisfação. Este ano me surpreendeu e comoveu numa situação com o Enem. A Lígia voltou do primeiro dia de provas nervosa e angustiada, não gostou do tema da redação e sensível como é estava bastante abalada. A noite ela já havia corrigido sua prova com o gabarito extra-oficial e ficou perguntando para Henrique como ele havia ido. Ele desconversou de várias maneiras, e até eu fiquei me perguntando se ele havia ido muito mal e estava escondendo ou se não tinha nenhuma curiosidade de saber a nota, mas depois descobrimos que ele estava na verdade poupando a irmã, havia ido muito bem e melhor que ela e não queria que ela ficasse mais triste, só contou no outro dia, depois de muita insistência dela... Este gesto de acolhimento e de empatia me faz vibrar e me transborda, quase mais que qualquer nota.
De todas as despedidas que os filhos vão nos dando na vida; da mamadeira, do cadeirão, de precisar de aconchego e colo, de auxílio no banho, da necessidade física e emocional da gente do lado nos conflitos na infância, Henrique hoje me apresenta mais uma: terminou o colégio. Durante toda essa semana estive nostálgica relembrando situações desse meu guri.
Filho, te desejo muitas conquistas e realizações, seja feliz. Coloca empenho e valoriza as oportunidades que a vida te oferece. Te amo infinito. Sempre que precisar, estaremos por perto.

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