sexta-feira, 10 de abril de 2020

Ouvidos seletivos


Sabe quando a gente conhece cada barulhinho da nossa casa? O estralar das telhas pela dilatação térmica, um piso que range ao caminhar, um tlim tlim que é a fresta da janela com o vento? Pois então, a constância nos faz driblar, catalogar e ignorar alguns desses sons corriqueiros, normais, cotidianos; nossos ouvidos são seletivos! São subterfúgios da mente!
A constatação me veio um dia destes, quando acordei de madrugada e percebi que meu amado ao lado dormia placidamente roncando mas foi o zim zim de um mosquito que me pôs em alerta e levou meu sono!

Insone


Três da madrugada. Testando percepção, reflexo, agilidade, tolerância e auto controle: um grilo no quarto!

Intrusa


Bato com força, extermino e sinto prazer. A Lígia reclama do susto e justifico: desculpa aí defensores de bichinhos mas tanto fez a moça que não me contentei com nada menos que uma morte dramática, foi merecida.
Só para quem sabe o que é sestear com uma mosca no recinto...
O ócio das férias faz a gente versar sobre os mais bizarros temas.

Indesejado


Silencio quase sepulcral não fosse por eventual - e clássico - barulho da geladeira, até que percebo que não estou sozinha, um grilo bem feliz anuncia sua chegada em algum lugar incógnito da casa. Hoje minha leitura tem sonoplastia...

Errata

A noite mais longa do ano não é o solstício de inverno, é aquela de inúmeros despertares quando a gente vela o sono agitado de um filho doente!

Dependência


Estilosos, moderninhos, austeros, leves, pesados, flexíveis, lindos, originais, cada um ao gosto do freguês, mas acima de tudo, todos imprescindíveis. Só quero um com rastreador. Os óculos...

No Consultório


Silêncio na sala de espera.

Pés se movimentam freneticamente. Revistas são folheadas sem interesse.

Uma pessoa masca chiclete de boca aberta e feliz, as vezes faz uma bola.

Ploc.

Um relógio marca silencioso as horas que não passam.

Paciência.

Pacientes, esperamos.

Os percalços do destino


  • A gente na vida passa por algumas dores. Dores da perda, dor de decepção, dores de amor, mas com certeza uma das piores é a dor e a frustração do teu corpo não funcionar como deveria.
  • Ao longo da vida encontramos estereótipos de todo jeito, em todas as profissões, e notadamente existem aqueles que se sobressaem.

Estava eu naquele leito de hospital, escutando gemidos e lamúrias numa sala de recuperação, confesso que fiz coro chorando de madrugada, mas enfim, elas estão lá, as enfermeiras e as técnicas de enfermagem. 
Nesta hora me disseram que iam me dar morfina e eu gelei, credo! É sério? Depois, se dizem que paredes tem ouvidos, imagina cortinas, vi que a droga rolava solta por ali e resolvi desfrutar do alívio oferecido (nunca havia visto tantas mandalas e eram tão coloridas).

Mas voltando às enfermeiras e essas profissões paralelas, não pude deixar de meditar acerca delas. Tem aquela que com um olhar te acarinha, conversa um pouquinho e te dá um incentivo. Vem a troca de turno e te aparece uma sisuda, vem e vai embora rápido, mas resolve teus problemas também. Aí do nada troca o turno de novo e te aparece um anjo, o suprassumo de um ser humano cheio de empatia, aquela que antecipa o que tu vais sentir ou precisar e está lá pronta, com uma palavra de ânimo e um sorriso no rosto, solícita, feliz e totalmente abnegada. Nestes momentos que temos consciência de nossa vulnerabilidade e que somos total e peremptoriamente dependentes da ajuda de alguém até para virar na cama e que até as necessidades fisiológicas mais banais da natureza humana são celebradas com alegria e gozo a gente vê o mundo com outros olhos. Impossível não lembrar dos que vivem dias, meses e anos a fio convivendo com hospitais e essas rotinas. Que triste deve ser. Quem tem saúde é rico.

Eu estou bem, por estes acasos do destino, tive um mioma que teimou em crescer e cresceu tão grande e forte que houve a necessidade de extraí-lo. O danado levou junto meu útero, mas ele gestou três filhos que amo mais que tudo e já havia cumprido sua função na vida, então que fosse embora mesmo. Se existe um onipotente lá em cima, obrigada, mas não posso deixar de agradecer à equipe médica e ao meu esposo Manuel que assumiu a administração da casa e me deu apoio. A vida é muito mais bonita sem dor.

Ana Clara

Ela é inteligente, sensível, geniosa, difícil e teimosa. Dona de uma voz encantadora (e sabe disso). Perspicaz, pega no ar, percebe e guarda... mas as vezes solta e atola. E até se arrepende, mas em geral é tímida, discreta, contida, quase uma incógnita. 
Gosto dela, sempre gostei, não sei se a recíproca é verdadeira e nem sei explicar esse gostar. Talvez desde que percebi seu interesse pelas letrinhas, os livros, as viagens sem sair do lugar. Talvez por ver tanta gente julgando e condenando (vá saber se não beirava o extremo mesmo): essa guria não para de ler, ela só quer ler. Me senti obrigada a proteger, a cuidar, a defender; meu pai também me xingava quando eu lia muito, quando lia qualquer coisa, quando lia demais. 
Lá na casa da praia não demorou muito para ela descobrir um porto seguro (eu gostava de acreditar nisso) e entrava sorrateira, as vezes com os olhinhos inchados por alguma briga e sentava no sofá, os braços cruzados. Eu puxava conversa, oferecia livrinhos e revistinhas. Ela se refazia, se remendava, ria alto, ficava leve e depois ia embora. Lembro de uma vez escutar daquela pré-adolescente um “tia Nani, que comentário mais tosco!” Me ofendi, me impactei, depois relevei; nada demais, e ela tinha razão. Não sei se a Clarinha já “se achou de verdade”, mas posso dizer que aqui no meu cantinho, sem estar muito presente, torço muito por ela, de verdade, de coração. Acho que ela sabe disso.

E ele conclui o ensino médio


Lá no Chile havia uma espécie de prova para as crianças entrarem no colégio. Eu não entendo bem porque, mas existia isso no Saint George´s College e não sei se havia em outros colégios. Eu não costumo me pré-ocupar, então estava de boa, mas haviam pais que ficavam muito nervosos com receio do filho não ser aceito, principalmente os que já tinham um filho estudando lá. E eis que Henrique naquela primeira prova de sua vida, com quase 4 anos de idade rapidamente se deu conta que a fita dourada colocada na sua roupa tinha uma conexão com a bola dourada no avental de uma das professoras. 
As crianças eram retiradas do pátio em que brincavam em grupos de cinco e ele numa destas se grudou na mão da professora de cor dourada e acabou ele mesmo escolhendo o momento de ser avaliado... "Por fin me toca", me dizia num espanhol carregado dum sentimento de finalmente (ele queria muito seguir os passos da mana).
Lembro das professoras falando que ele era muito atento. Na certa liberdade das aulas do pré-kinder e Kinder ele poderia estar embaixo da mesa brincando aparentemente absorto ao que acontecia na sala, mas quando a professora perguntava algo pra turma era dos poucos que respondia, muitas vezes o único... Quando viemos para o Brasil, estranhamos muito o colégio, as metodologias e a rotina. Ele e Lígia falavam português com um acento do espanhol, mas ambos foram aprendendo as gírias, fazendo amigos e superaram. 

Divertido

Na vida acadêmica de Henrique raras vezes fui chamada ao colégio e normalmente para que puxasse as orelhas, porque ele tinha muita capacidade mas alguma preguiça... Muito cedo fui categoricamente liberada e convidada a não auxiliar nos temas ("mami, não precisa, sai, deixa que eu faço sozinho"), ele só me avisava quando precisava uma cartolina, um material diferente, um avental, uma tinta ou outra coisa. Vibrava com os conhecimentos, com uma sede de saber e aí vinham as piadinhas.... - Mãe, vem aqui, preciso de ti como minha advogada (brigando com a Lígia, agosto 2010) - Anita, sabia que a maçã não é um fruto? É um pseudo-fruto... (ela comia uma maçã, 2013)...

Inteligente

Com capacidade para ser brilhante, no colégio foi se destacando, convidado a participar do GEA (grupo de estudos avançados), ganhou destaque em alguns simulados, terceiro lugar ali, primeiro lugar em outros, sempre nos enchendo de orgulho. Eu raramente descobria por ele, as vezes na página do colégio o via numa foto do lado da diretora e eu só perguntava: Henrique, tu não tem nada para me contar? Ele dava uma risadinha de lado e aí contava. Eu sabia que havia uma satisfação naquele olhar, mas era assim, sem alarde, muito Henrique. Outras vezes descobria pela Julia S., que comentava como eu soubesse que Henrique estava assim ou assado na hora da premiação (que premiação??!) Um guri simples, discreto, envergonhado, dono de um humor peculiar e delicioso, de "time" perfeito, mas que também pode ser bem explosivo, sobretudo em suas frustrações, e assim da água pro vinho em outro momento se mostra super amoroso e com uma paciência infinita... muito Henrique.

Companheiro, amigo e introspectivo

Com a Lígia tem uma conexão especial, de irmão, de cumplicidade e segredos que me traz muita satisfação. Este ano me surpreendeu e comoveu numa situação com o Enem. A Lígia voltou do primeiro dia de provas nervosa e angustiada, não gostou do tema da redação e sensível como é estava bastante abalada. A noite ela já havia corrigido sua prova com o gabarito extra-oficial e ficou perguntando para Henrique como ele havia ido. Ele desconversou de várias maneiras, e até eu fiquei me perguntando se ele havia ido muito mal e estava escondendo ou se não tinha nenhuma curiosidade de saber a nota, mas depois descobrimos que ele estava na verdade poupando a irmã, havia ido muito bem e melhor que ela e não queria que ela ficasse mais triste, só contou no outro dia, depois de muita insistência dela... Este gesto de acolhimento e de empatia me faz vibrar e me transborda, quase mais que qualquer nota.
De todas as despedidas que os filhos vão nos dando na vida; da mamadeira, do cadeirão, de precisar de aconchego e colo, de auxílio no banho, da necessidade física e emocional da gente do lado nos conflitos na infância, Henrique hoje me apresenta mais uma: terminou o colégio. Durante toda essa semana estive nostálgica relembrando situações desse meu guri.
Filho, te desejo muitas conquistas e realizações, seja feliz. Coloca empenho e valoriza as oportunidades que a vida te oferece. Te amo infinito. Sempre que precisar, estaremos por perto.

Todo o glamour dos quinze anos...


Sete amigas. Fomos buscá-las no colégio, depois da aula, antes do almoço. Dentre elas nossa filha Lígia. Ávidas por alegria, risadas e tititis como adolescentes que são.

Transmitiam todo tempo e a Anita(6a), que estava no carro comigo, logo se enturmou. Manuel foi com outro grupo não menos animado, mas a aniversariante foi comigo. Só ela sabia o que iria acontecer, para as outras era surpresa. Conheço a Lígia, ela precisava saber antes e não houve menos brilho por este detalhe.

Primeira parada, restaurante Dado Bier, Porto Alegre. Ali já foi uma festa e a menina que no carro confidenciou que não conhecia nenhum shopping de Porto Alegre, que adorava comer no SubWay embora só tivesse ido lá uma vez, se escondeu atrás de outra: - Meu Deus, me belisca, eu não acredito, disse olhando o entorno maravilhada. Gosto disso do colégio dos meus filhos, essa diversidade é educativa, prepara para a vida.

Sentaram numa mesa comprida e ficamos, Manuel, Anita e eu numa mesa próxima. A festa era delas, conversaram, riram, experimentaram e curtiram. Sim, cantaram parabéns com o bolinho em formato de dado, velinha de fogos e garçons cantando animadamente. Tudo que tinham direito. A aniversariante é por vezes contida e foi se soltando aos poucos, esta festa toda é para mim! Eu escolho, eu posso! Deu para perceber a mudança!

Algo inesperado

Passearam no shopping, fizeram sessão de fotos no banheiro (fiquei sabendo depois) e nos encontramos mais tarde. Ao entrar no carro expliquei: “vamos parar num posto de gasolina, o Manuel precisa abastecer o carro” e assim saímos do shopping. Vira esquina, ali e ali e alguém comenta:
 - Gente, olha! Uma limousine! 
Vamos perguntar se podemos tirar fotos?, aproveito a deixa. Rapidamente estacionamos os carros e descemos. O chofer, vestido a rigor, ajeitava alguns detalhes e elas entraram, maravilhadas. Me aproximei da porta louca para contar! Em seguida disseram: “Vamos descer; o tiozinho pode ficar chateado, já tiramos fotos”, pareciam desconfortáveis como se não devessem estar ali. 
Parece que ele está perdido, fiquem aí mais um pouquinho, respondi. E de certa forma ele estava, não sabia como chegar na nossa casa! Configura GPS, anota aqui e ali, combina trajeto e hora e intermináveis dez minutos se passam. 
Chegou a hora de contar, pensei com excitação. Coloquei o rosto pra dentro da limousine, esperei que todas me olhassem e falei bem claro:

 - Bom passeio. 

Elas se entre olharam sem entender nada e as mais rápidas explicaram para as outras até que todas gritaram de alegria! Ainda escutei um “eu acho que vou chorar”.
Gurias, sair pelo teto solar só quando o chofer disser que pode, água, suco e refrigerante a vontade, caixa de bombons e totozinhos. Ah! Detalhe! Tem uma champanhe aí que é sem álcool, podem tomar. Esta última instrução foi dada na última hora, nova gritaria. Duas horas de passeio. Viemos para casa com os carros em silencio, minha caçula dormiu. Em casa ficamos esperando por elas, até que ao longe escutamos um gritedo e sorri, só podem ser elas! E eram. 

Chegaram roucas, sem voz. “Foi legal tomar champanhe mas é ruim". Comi demais, disse outra. “Abanamos pra todo mundo!” Mami, o tiozinho é muito legal, eu só não abraço muito ele porque me dá vergonha! Ele nos avisava toda hora: gurias, quando eu parar nesta sinaleira vocês podem levantar. Ao invés de fazer o passeio por pontos turísticos de Porto Alegre vieram pela Assis Brasil, Cachoeirinha e Gravataí, contaram que chamavam as pessoas, abanavam, gritavam oi e se divertiram vendo alguns abanarem entusiasticamente, outros se acotovelarem puxando celulares para tirar fotos e ainda outros olharem com desdém, mas elas não estavam nem aí com isso. Aqui em casa, bem mais tarde, criaram no facebook um grupo para compartilhar fotos: As famosas de Gravataí!

Claro que tiraram mais fotos antes de liberar a limousine. Depois ainda passearam pelo condomínio, jogaram vôlei e dançaram com o Just Dance até cansar. Eu também fui convocada e dancei.

Da festa ainda rolou pizza, docinhos, jogaram Imagem e ação e conversaram. Era perto das 23h quando vieram buscar a última menina. Alguns pais aceitaram o convite para entrar e ainda pudemos conversar e compartilhar uma cervejinha, nós também nos divertimos! “Foi o melhor dia da minha vida”, “a minha mãe vai ter que me aguentar toda a noite contando”, “foi inesquecível” e até um: “tia, eu vou voltar”... assim cada uma foi se despedindo. Gurias bacanas, legais.

A Lígia ainda hoje, dois dias depois, se emociona quando diz que somos os melhores pais do mundo. Eu queria voltar e viver de novo aquele dia, diz.

E assim foi a celebração dos Quinze anos da nossa filha Lígia. Muito bem festejados, pois o mais importante aconteceu: Ela se divertiu muito. Não preciso dizer que também me senti realizada.

De crianças esclarecidas, situações engraçadas e medos infundados



No shopping, tudo natalino com direito a bom velhinho de barba verdadeira e sorriso no rosto convidando a criançada pra conversar e tirar a clássica foto.

A Anita(6a) sentiu o clima e apertou minha mão. Ainda não havia fila, era só chegar. Vamos lá?, convidei. Não quero, repetiu; a gente já havia passado ali um pouco antes, logo que chegamos. O engraçado é que ela apertava minha mão e evitava fazer contato visual com a cena e eu mais achando divertido que qualquer outra coisa, insisti:

- Ah, vamos lá! Ele é bonzinho, é ele que traz os presentes...
- Mami, respeita meu medo: eu não quero.

Engoli em seco, segurei riso e fomos comer sorvete.

...

Fui bebê sonhada, desejada Fui criança amada, quase mimada Fui adolescente, briguei Fui mulher, entendi Fui mãe, compreendi Despedaçada... p...