segunda-feira, 24 de agosto de 2020

...

Fui bebê sonhada, desejada
Fui criança amada, quase mimada
Fui adolescente, briguei
Fui mulher, entendi
Fui mãe, compreendi
Despedaçada... preciso me reconstruir...


sexta-feira, 10 de abril de 2020

Ouvidos seletivos


Sabe quando a gente conhece cada barulhinho da nossa casa? O estralar das telhas pela dilatação térmica, um piso que range ao caminhar, um tlim tlim que é a fresta da janela com o vento? Pois então, a constância nos faz driblar, catalogar e ignorar alguns desses sons corriqueiros, normais, cotidianos; nossos ouvidos são seletivos! São subterfúgios da mente!
A constatação me veio um dia destes, quando acordei de madrugada e percebi que meu amado ao lado dormia placidamente roncando mas foi o zim zim de um mosquito que me pôs em alerta e levou meu sono!

Insone


Três da madrugada. Testando percepção, reflexo, agilidade, tolerância e auto controle: um grilo no quarto!

Intrusa


Bato com força, extermino e sinto prazer. A Lígia reclama do susto e justifico: desculpa aí defensores de bichinhos mas tanto fez a moça que não me contentei com nada menos que uma morte dramática, foi merecida.
Só para quem sabe o que é sestear com uma mosca no recinto...
O ócio das férias faz a gente versar sobre os mais bizarros temas.

Indesejado


Silencio quase sepulcral não fosse por eventual - e clássico - barulho da geladeira, até que percebo que não estou sozinha, um grilo bem feliz anuncia sua chegada em algum lugar incógnito da casa. Hoje minha leitura tem sonoplastia...

Errata

A noite mais longa do ano não é o solstício de inverno, é aquela de inúmeros despertares quando a gente vela o sono agitado de um filho doente!

Dependência


Estilosos, moderninhos, austeros, leves, pesados, flexíveis, lindos, originais, cada um ao gosto do freguês, mas acima de tudo, todos imprescindíveis. Só quero um com rastreador. Os óculos...

No Consultório


Silêncio na sala de espera.

Pés se movimentam freneticamente. Revistas são folheadas sem interesse.

Uma pessoa masca chiclete de boca aberta e feliz, as vezes faz uma bola.

Ploc.

Um relógio marca silencioso as horas que não passam.

Paciência.

Pacientes, esperamos.

Os percalços do destino


  • A gente na vida passa por algumas dores. Dores da perda, dor de decepção, dores de amor, mas com certeza uma das piores é a dor e a frustração do teu corpo não funcionar como deveria.
  • Ao longo da vida encontramos estereótipos de todo jeito, em todas as profissões, e notadamente existem aqueles que se sobressaem.

Estava eu naquele leito de hospital, escutando gemidos e lamúrias numa sala de recuperação, confesso que fiz coro chorando de madrugada, mas enfim, elas estão lá, as enfermeiras e as técnicas de enfermagem. 
Nesta hora me disseram que iam me dar morfina e eu gelei, credo! É sério? Depois, se dizem que paredes tem ouvidos, imagina cortinas, vi que a droga rolava solta por ali e resolvi desfrutar do alívio oferecido (nunca havia visto tantas mandalas e eram tão coloridas).

Mas voltando às enfermeiras e essas profissões paralelas, não pude deixar de meditar acerca delas. Tem aquela que com um olhar te acarinha, conversa um pouquinho e te dá um incentivo. Vem a troca de turno e te aparece uma sisuda, vem e vai embora rápido, mas resolve teus problemas também. Aí do nada troca o turno de novo e te aparece um anjo, o suprassumo de um ser humano cheio de empatia, aquela que antecipa o que tu vais sentir ou precisar e está lá pronta, com uma palavra de ânimo e um sorriso no rosto, solícita, feliz e totalmente abnegada. Nestes momentos que temos consciência de nossa vulnerabilidade e que somos total e peremptoriamente dependentes da ajuda de alguém até para virar na cama e que até as necessidades fisiológicas mais banais da natureza humana são celebradas com alegria e gozo a gente vê o mundo com outros olhos. Impossível não lembrar dos que vivem dias, meses e anos a fio convivendo com hospitais e essas rotinas. Que triste deve ser. Quem tem saúde é rico.

Eu estou bem, por estes acasos do destino, tive um mioma que teimou em crescer e cresceu tão grande e forte que houve a necessidade de extraí-lo. O danado levou junto meu útero, mas ele gestou três filhos que amo mais que tudo e já havia cumprido sua função na vida, então que fosse embora mesmo. Se existe um onipotente lá em cima, obrigada, mas não posso deixar de agradecer à equipe médica e ao meu esposo Manuel que assumiu a administração da casa e me deu apoio. A vida é muito mais bonita sem dor.

Ana Clara

Ela é inteligente, sensível, geniosa, difícil e teimosa. Dona de uma voz encantadora (e sabe disso). Perspicaz, pega no ar, percebe e guarda... mas as vezes solta e atola. E até se arrepende, mas em geral é tímida, discreta, contida, quase uma incógnita. 
Gosto dela, sempre gostei, não sei se a recíproca é verdadeira e nem sei explicar esse gostar. Talvez desde que percebi seu interesse pelas letrinhas, os livros, as viagens sem sair do lugar. Talvez por ver tanta gente julgando e condenando (vá saber se não beirava o extremo mesmo): essa guria não para de ler, ela só quer ler. Me senti obrigada a proteger, a cuidar, a defender; meu pai também me xingava quando eu lia muito, quando lia qualquer coisa, quando lia demais. 
Lá na casa da praia não demorou muito para ela descobrir um porto seguro (eu gostava de acreditar nisso) e entrava sorrateira, as vezes com os olhinhos inchados por alguma briga e sentava no sofá, os braços cruzados. Eu puxava conversa, oferecia livrinhos e revistinhas. Ela se refazia, se remendava, ria alto, ficava leve e depois ia embora. Lembro de uma vez escutar daquela pré-adolescente um “tia Nani, que comentário mais tosco!” Me ofendi, me impactei, depois relevei; nada demais, e ela tinha razão. Não sei se a Clarinha já “se achou de verdade”, mas posso dizer que aqui no meu cantinho, sem estar muito presente, torço muito por ela, de verdade, de coração. Acho que ela sabe disso.

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Fui bebê sonhada, desejada Fui criança amada, quase mimada Fui adolescente, briguei Fui mulher, entendi Fui mãe, compreendi Despedaçada... p...