Ela
é inteligente, sensível, geniosa, difícil e teimosa. Dona de uma voz
encantadora (e sabe disso). Perspicaz, pega no ar, percebe e guarda... mas as
vezes solta e atola. E até se arrepende, mas em geral é tímida, discreta,
contida, quase uma incógnita.
Gosto dela, sempre gostei, não sei se a recíproca
é verdadeira e nem sei explicar esse gostar. Talvez desde que percebi seu
interesse pelas letrinhas, os livros, as viagens sem sair do lugar. Talvez por
ver tanta gente julgando e condenando (vá saber se não beirava o extremo mesmo):
essa guria não para de ler, ela só quer ler. Me senti obrigada a proteger, a cuidar,
a defender; meu pai também me xingava quando eu lia muito, quando lia qualquer
coisa, quando lia demais.
Lá na casa da praia não demorou muito para ela descobrir
um porto seguro (eu gostava de acreditar nisso) e entrava sorrateira, as vezes
com os olhinhos inchados por alguma briga e sentava no sofá, os braços cruzados.
Eu puxava conversa, oferecia livrinhos e revistinhas. Ela se refazia, se
remendava, ria alto, ficava leve e depois ia embora. Lembro de uma vez escutar
daquela pré-adolescente um “tia Nani, que comentário mais tosco!” Me ofendi, me
impactei, depois relevei; nada demais, e ela tinha razão. Não sei se a Clarinha
já “se achou de verdade”, mas posso dizer que aqui no meu cantinho, sem estar
muito presente, torço muito por ela, de verdade, de coração. Acho que ela sabe disso.
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