sexta-feira, 10 de abril de 2020

Ana Clara

Ela é inteligente, sensível, geniosa, difícil e teimosa. Dona de uma voz encantadora (e sabe disso). Perspicaz, pega no ar, percebe e guarda... mas as vezes solta e atola. E até se arrepende, mas em geral é tímida, discreta, contida, quase uma incógnita. 
Gosto dela, sempre gostei, não sei se a recíproca é verdadeira e nem sei explicar esse gostar. Talvez desde que percebi seu interesse pelas letrinhas, os livros, as viagens sem sair do lugar. Talvez por ver tanta gente julgando e condenando (vá saber se não beirava o extremo mesmo): essa guria não para de ler, ela só quer ler. Me senti obrigada a proteger, a cuidar, a defender; meu pai também me xingava quando eu lia muito, quando lia qualquer coisa, quando lia demais. 
Lá na casa da praia não demorou muito para ela descobrir um porto seguro (eu gostava de acreditar nisso) e entrava sorrateira, as vezes com os olhinhos inchados por alguma briga e sentava no sofá, os braços cruzados. Eu puxava conversa, oferecia livrinhos e revistinhas. Ela se refazia, se remendava, ria alto, ficava leve e depois ia embora. Lembro de uma vez escutar daquela pré-adolescente um “tia Nani, que comentário mais tosco!” Me ofendi, me impactei, depois relevei; nada demais, e ela tinha razão. Não sei se a Clarinha já “se achou de verdade”, mas posso dizer que aqui no meu cantinho, sem estar muito presente, torço muito por ela, de verdade, de coração. Acho que ela sabe disso.

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